Não é de hoje que o processo da educação é compreendido pela relação educador e aluno. Na Grécia antiga, por exemplo, o aluno era educado por um escravo - individuo vencido em campo de batalha, que em outras palavras é visto como inferior -. Desta forma, na idade clássica, o educador invejado por suas virtudes de conhecimento é afastado de ter êxito em ações (que vistas pela pólis) só podem ser solucionadas pela força física. Transportada para tempos atuais essa discriminação ao “poder” do educador, torna o processo de educação um tanto conflitante, pois, temos uma sociedade que aceita punições morais ao mesmo tempo em que proíbe o exercício de punições físicas, já que desde os primórdios estamos inseridos num sistema educacional fundamentado em relações de dominação.
Theodor W. Adorno (1903-1969) filósofo e sociólogo alemão, questiona no texto, "Educação após Auschwiz[1]", a educação autoritária que usa como ferramenta de controle dos alunos a punição física, uma das causas - segundo Adorno - da barbárie que ocorreu no período da segunda guerra mundial na Alemanha nazista. Atualmente, reduzimos cada vez mais o modelo de punições físicas e aumentamos o uso das punições psicológicas atribuidas ao modelo pedagógico de Comênico:
“Se, porém, por vezes, é necessário espevitar e estimular, o efeito pode ser obtido por meio de outros meios e melhores que as pancadas: às vezes, com uma palavra mais áspera e com uma repreensão dada em público; outras vezes, elogiando os outros: "Olha como estão atentos este teu colega e aquele, e como entendem bem todas as coisas! Por que é que tu és assim tão preguiçoso?"; outras vezes suscitando o riso: "Então tu não entendes uma coisa tão fácil? Andas com o espírito a passear?”Podem ainda estabelecer-se "desafios" ou "sabatinas" semanais, ou ainda mensais, para a quem cabe o primeiro lugar ou a honra de um elogio... desde que se veja que isto não vai resultar num mero divertimento ou numa brincadeira, e por isso inútil, mas para que o desejo do elogio e o medo do vitupério e da humilhação estimulem verdadeiramente à aplicação. (Comênio, 1985, p. 403)”.
Entendendo o sistema pedagógico de Comênio, entendemos também um pouco do atual modelo de sociedade (consumista). Não é por acaso que o conceito de fetichismo (desejo) também foi absorvido no meio educacional; disseminando valores morais; seduzindo pessoas para um modelo ideal, exaltando o aluno disciplinado, passivo aos mandos e desmandos do professor. O desejo do elogio, o medo de ser insultado e humilhado diante de todos os colegas, fazem com que o aluno se concentre no conteúdo transmitido, a fim de que não cometa erros podendo transformá-lo num alvo do escárnio sarcástico do professor. O eco de uma repreensão do tipo: "Então você não sabe uma coisa tão fácil? Onde você esta com a cabeça?", reverbera por um tempo muito maior do que o desejado na mente do aluno humilhado, pois é atualizado no sorriso sarcástico do colega que aprendeu muito bem a lição sado masoquista de seu mestre: Fique atento! O próximo a ser objeto de gozação pode ser você!
Toda a estrutura e o posicionamento dos objetos, alunos e professor dentro de uma sala de aula; serve para esse controle de dominação e repressão. O aluno é constantemente colocado à prova, mas, não é sempre que esse sistema de punições e controle psicológico se sobre-sai, no texto
"Sobre a psicologia do relacionamento entre professores e alunos", Adorno afirma que:
"Como se sabe, toda pressão estimula uma contrapressão e o aluno se torna desperto para a resistência (...). Num primeiro momento, o ódio se faz presente em sua forma mais primitiva, ou seja, na resistência simples e imediata diante das influências externas e sobejamente mais fortes. Depois prevalecem outras de suas derivações, tais como a inveja, o rancor e, principalmente, o impulso para a representação, para um jogo de cena. (Adorno, 1986, p. 723)"
Quando crescemos, descobrimos que o professor é um ser humano comum, sujeito a erros e acertos, dessa forma o mesmo perde seu brilho de superioridade intelectual,- é muito comum, um professor discordar do raciocínio de um aluno e banalizá-lo perante a classe - boa deixa para que outros alunos façam o mesmo com seus amigos: “- Se o professor esta fazendo também posso fazer.” O ódio do aluno se transforma gradativamente naquilo que Adorno chamou de: Impulso para a representação, para um jogo de cena.
A situação do sistema educacional brasileiro não é diferente e, se não bastasse as relações conflitantes de prestigio atribuídas aos professores do ensino fundamental, médio e universitário. O mercado de trabalho é a cada dia mais competitivo, tornando a profissão uma disputa conturbada, onde os educadores sentem a necessidade diária de alimentar o próprio ego. Muitos tentando manter a áurea de superior perante o aluno e, que por sua vez é colocado à prova, contaminando o ambiente de sala pela intolerância. O resultado desse imbróglio não poderia ser outro, senão, uma sociedade demasiadamente competitiva, supervalorizando a minoria e a usando como modelo para todos. Onde algumas Universidades são exaltadas e as demais são descriminadas, tanto para a inserção do aluno no mercado de trabalho, como também no meio acadêmico.
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